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O vinho com "toque brasileiro" que chegou ao topo do mundo

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    ABS-RS
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

Argiano Brunello di Montalcino 2018, que tem banqueiro do Brasil entre os proprietários da vinícola, conquistou, há três anos, o título de 'Vinho do Ano' pela Wine Spectator

 

Por Gilson Garret Jr., para Forbes Brasil

 

Divulgação Wine Spectator


O melhor vinho do mundo em 2023 tem um brasileiro por trás. Sócio da vinícola italiana Argiano desde 2013, o banqueiro André Esteves, chairman do BTG Pactual e quarto lugar na lista de bilionários da Forbes Brasil. Com uma fortuna estimada em R$ 51 bilhões, viu um de seus rótulos atravessar a barreira dos rankings especializados e entrar para o radar global do luxo. O Argiano Brunello de Montalcino 2018 foi eleito vinho do ano pela prestigiada da revista americana Wine Spectator, com 95 pontos no topo da lista dos 100 melhores rótulos lançados em 2023.

 

Por trás da pontuação está uma mudança profunda na maneira como a Argiano entende o próprio território. Fundada em 1850 no coração de Montalcino, na Toscana, a vinícola faz parte do seleto grupo das 25 fundadoras do consórcio de Brunello. Há pouco mais de uma década, quando foi adquirida por Esteves e um grupo de investidores da condessa Noemi Maroni de Cinzano, e do enólogo Hans Vinding-Diers, começou um projeto de dez anos para reposicionar o estilo da casa. Um trabalho que envolveu nomes como o chileno Pedro Parra, o “Sr. Terroir”, especialista em microclimas.

 

Hoje, o Brunello premiado sintetiza essa virada. “Os vinhos mudaram muito, passaram a refletir de forma mais direta as ideias que temos hoje sobre o território”diz à Forbes Brasil, Marguerita Mascagni, gerente de exportações da Argiano. “Buscamos uma pureza de expressão do território. Nosso solo é muito rico em calcário e, por muito tempo, isso não era tão valorizado. O estilo era mais amadeirado”.

 

A safra premiada ainda existe disponível no mercado, mas apenas para quem tem muito dinheiro no bolso e disposição para convencer alguém a vender o rótulo. Já a safra 2023 chega ao Brasil pela importadora Aurora/Inovine pelo preço sugerido de R$1.155. A vinícola também tem à disposição outros rótulos, como o clássico Argiano Sangiovese de Montalcino, safra 2020, por R$375.

Importadora Inovini e Bloomberg

Sede da Argiano e André Esteves, chairman do BTG Pactual e sócio desde 2013 da vinícola italiana
Sede da Argiano e André Esteves, chairman do BTG Pactual e sócio desde 2013 da vinícola italiana

 

Menos madeira, mais Montalcino

chave da transformação foi justamente reduzir a intervenção na adega. “Baixamos a madeira. O Brunello continua sendo um vinho de guarda, mas não precisa ser marcado pelo carvalho”, afirma Mascagni. Segundo ela, a Argiano, que já fora referência de um estilo mais moderno em Montalcino, decidiu “voltar para trás” e se aproximar de um Brunello mais clássico – sem perder a capacidade de envelhecer, mas com outra textura.


Na prática, isso significa vinhos que mostram mais flores e menos tostado, com taninos mais macios e um acabamento mais fino. Mas Mascagni resume assim a chave que conquistou a Wine Spectator: “2018 não era considerada uma grande chave, então nos ajudou a mostrar o que queremos exprimir hoje. É um vinho com notas balsâmicas, florais, para mostrar como fazemos o vinho hoje.”


A mudança não foi de um ano para o outro. As safras 2015 e 2016 aparecem como marcos nessa transição, “foram as primeiras safras com menos intervenção”, conta. “Em 2015 usamos pela primeira vez uvas de uma vinha de 60 anos, degustamos as parcelas separadamente e passamos a valorizar mais a expressão do solo do que o tempo na adega.”

 

Clima em transformação, estilo em ajuste fino

O pano de fundo dessa revisão é a própria mudança climática em Montaltino. “Verões mais quentes e extremos obrigaram os produtores a repensar colheitas de maturação. A mudança climática exige controlar muito mais maturação. Evitar a sobrematuração é fundamental”, diz Mascagni. Nesse contexto, trabalhar com menos madeira e com extrações mais delicadas ajuda a manter frescor e equilíbrio, mesmo em safras difíceis.


A Argiano continua fiel ao Brunelo clássico, um tinto 100% sangiovese, como manda a denominação, mas agora com foco maior na transparência do lugar. “Essa expressão de território está se tornando mais importante. Antes, o vinho às vezes passava um ano a mais na adega para ganhar mais estrutura. Hoje olhamos para que o solo e as bacelas tenham a dizer”, afirma.

 

Alcance global

Apesar da visibilidade conquistada com o título da Wine Spectator, a lista dos 100 melhores vinhos do ano publicada desde 1988 move o mercado mundial, a Argiano também mantém escala relativamente contida. A produção anual gira em torno de 350 mil garrafas, das quais 110 mil a 120 mil são Brunello de Montalcino, a partir de 60 hectares de vinhedos.


O consumo é pulverizado, mas com alguns polos claros. “Cerca de 30% ficam na Itália”, diz Mascagni. “Os Estados Unidos são nosso primeiro mercado e o Brasil está no top 10”. Por aqui, os rótulos chegam por meio da importadora Inovini, que inclui a Argiano em seu portfólio de marcas de alto padrão.


No turismo, o Brasil também ganhou protagonismo. “O brasileiro viaja muito para a Itália. Hoje é o segundo público que mais visita a vinícola. Logo depois dos Estados Unidos”, conta a executiva. Ela aponta a explosão do turismo enogastronômico de luxo como um dos vetores dessa aproximação. Algo que combina bem com a trajetória de um sócio bilionário acostumado ao topo dos rankings financeiros.


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