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Vinho fino brasileiro assume vice-liderança no mercado nacional em 2020

O brasileiro quebrou o preconceito com a bebida produzida no país. Volume comercializado atingiu a marca de 28 milhões de litros



O ano de 2020 foi um verdadeiro divisor de águas para o mercado do vinho no Brasil provocado por uma grande mudança nos hábitos de consumo impostas pelo distanciamento social da pandemia. O consumo per capita que se mantinha estável há décadas próximo dos 2 litros per capita fechou dezembro em 2,78 litros, um recorde histórico para a indústria nacional.


A dinâmica do mercado mudou e o supermercado que já vinha forte nas importações diretas desde 2017 ganhou ainda mais protagonismo dentro desse cenário. Os vinhos importados de até R$ 20 especialmente do Chile, da Argentina e Portugal se tornaram raridades no inverno de 2020 com o dólar atingindo seu pico de R$ 5,90 em maio. Nesta lacuna entraram os vinhos finos brasileiros, especialmente a categoria dos reservados elaborados pelas grandes vinícolas verde-e-amarelas, roubaram a cena. Enquanto o mercado cresceu 31%, os vinhos finos brasileiros avançaram 76%, fato inédito na última década, chegando aos 28 milhões de litros comercializados.


O consumidor não quebrou o preconceito apenas com os vinhos brasileiros baratos. O grande destaque de 2020 foi a reconquista do apreciador de vinhos que redescobriu o Brasil vitivinícola. Aumentou a variedade e a diversidade dos vinhos nacionais nas gôndolas dos supermercados e o país passou a ser opção de compra especialmente nas categorias entre R$ 30 e R$ 50 dominadas pelos importados. As vinícolas brasileiras de pequeno e médio porte que investiram em ganhar visibilidade no on-line e se aproximar dos consumidores exigentes também prosperaram cobrando acima de R$ 50 pelos rótulos. O boom de consumo de vinhos finos brasileiros literalmente esvaziou as vinícolas em 2020. O estoque que era de 68,3 milhões de litros (em torno de duas safras e meia) baixou para 26,6 milhões de litros de vinhos finos.



Brasil na vice-liderança


A posição de liderança do Chile entre os vinhos importados é absoluta e mesmo com o impacto cambial cresceu 38% no ano passado. As importações diretas se intensificaram, especialmente para os supermercados, e grandes marcas aceleraram os investimentos em solo brasileiro.



O Brasil saiu da quarta posição em 2019 para a vice-liderança em 2020, ampliando sua participação no mercado de 12,3% para 16% na categoria dos vinhos finos (não estão contabilizados vinhos de mesa e espumantes). Estabeleceu-se no ano marcado pela pandemia um novo patamar de consumo dos vinhos brasileiros dada a confiança do consumidor brasileiro no produto em todas as categorias de preço. A tabela a seguir apresenta o comparativo da comercialização de vinhos finos nacionais e importados no último biênio.



Vale destacar o bom desempenho de Portugal. O país europeu vem crescendo anualmente com investimentos consistentes em promoção de mercado, mesmo com o alto imposto de importação de 27% que se aplicam a todos os vinhos daquele continente. O segredo do sucesso do vinho português no Brasil? Adequação de produto ao paladar do consumidor com vinhos frutados, meio-secos e alguns levemente frisantes (vinhos verdes em especial) ao trabalho de marcas de renome como Esporão, Quinta do Crasto, Fundação Eugenio de Almeida, Sogrape, Aveleda, Bacalhoa, José Fonseca de Almeida, entre tantas outras. Certamente o vinho Português seguirá crescendo no mercado em 2021 ao lado da Espanha, seu país vizinho que ainda está tímido no Brasil e ganhará mais destaque nos próximos anos, especialmente nos vinhos abaixo de R$ 50.




A Argentina deverá avançar neste ano especialmente pela desvalorização cambial do peso que deixou os seus vinhos mais competitivos no mercado brasileiro. Novas marcas estão se aproximando dos novos consumidores com rótulos modernos e atrativos. Um bom exemplo desse movimento são os vinhos da vinícola Mosquita Muerta que está ganhando reconhecimento e destaque ao lado de marcas tradicionais.



E o vinho de mesa?


O vinho mostrou-se resiliente à pandemia, inclusive de mesa, elaborado com uvas americanas e hibridas vendidos principalmente em duas grandes categorias de preços: até R$ 9,90 (destaque para o tinto suave de bordô e Isabel) e de R$ 10 a R$ 15 (ênfase para o bordô tinto suave). São vinhos de consumo frequente que tiveram o grande impacto de consumo nos meses de maio, junho e julho de 2020. O incremento de vendas foi de 51,8 milhões de litros de vinhos de mesa consumidos em 2020 – um salto de 19%, atingindo a marca de 225,3 milhões de litros. O desafio é manter o mesmo nível de consumo ao longo deste ano e fazer com que a frequência se mantenha especialmente durante o inverno, período de maior procura desse tipo de produto.



O que esperar de 2021?


Não conseguimos baixar impostos no vinho em 2020, mas quebramos a barreira de mudança de hábito de consumo conquistando novos consumidores. O desafio é seguir despertando o interesse nesse novo consumidor para que se encante com a categoria. A safra de 2021 está chegando com alta qualidade e certamente não faltarão boas opções de vinhos nacionais e importados no mercado. E para os consumidores que aumentaram sua frequência de consumo, que o vinho siga brindando os momentos de pequenos prazeres diários das rotinas de home office que já é uma realidade para muitos setores da economia.

O vinho brasileiro deverá seguir em evidência visto que o câmbio se mantém com tendência de alta e deverá impactar as importações do primeiro semestre e abastecimento de inverno. E claro, o reconhecimento conquistado mediante os 50 milhões de consumidores brasileiros de vinho.


Quer saber mais sobre o mercado de vinhos no Brasil em 2021?


Clique aqui e acompanhe a palestra de Andreia Gentilini Milan sobre o tema no movimento Bella Ciao.



Sobre a autora: Andreia Milan é Sommelier profissional, administradora de empresas com MBA pela Fundação Dom Cabral e Post-MBA na Kellogg School of Management. Membro do conselho da ABS-Brasil, ex-presidente e atual tesoureira da ABS-RS. Empreendedora do mundo do vinho, é uma das idealizadoras da marca premium de espumantes Amitié e sócia da Agencia de Viagem Bem Vino, com foco em Enoturismo.

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