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Uvas nativas da América

Algumas delas estão ameaçadas de desaparecer




A América foi coberta com videiras antes mesmo de variedades como Zinfandel e Cabernet Sauvignon serem transplantadas da Europa. Várias dessas espécies nativas desempenham um papel importante no mundo do vinho. Basta ver o mapa dos Estados Unidos para que salte aos olhos a variedade existente por lá.


Os índios norte-americanos usavam essas uvas como fonte de sustento, para consumo in natura, mas quando imigrantes ingleses chegaram lá se deram conta que havia potencial para elaboração de vinho. No entanto, a vinificação surgirá bem depois na Costa Leste, que passa a interiorizar até a Califórnia onde há muita área para plantação. O estado opta pelas viníferas para aquela região. Nos Estados Unidos, assim como no Brasil, as Vitis americanas são utilizadas para consumo de um vinho para o local, sem nenhuma pretensão de exportar a bebida.


As espécies nativas não são compreendidas totalmente, pois é um ambiente selvagem. Até hoje se procura saber as formas como elas crescem, quais aromas e compostos produzem, bem como a melhor técnica de vinificação. Mas por qual razão se sabe pouco? Elas não têm um grande reconhecimento e interesse econômico em nível mundial. Das centenas de variedades identificadas nos últimos 200 anos, poucas são cultivadas atualmente. Recomendo, como um início do que pode se tornar uma paixão, o Programa Uvas do Brasil, liderado pela Embrapa Uva e Vinho. O estudo revela algumas das variedades híbridas, onde se planta, qual sua produtividade, além de outros fatores. A seguir descreverei seis dessas espécies, sendo que muitas já forma extintas e outras podem ser. Talvez esse texto traga sensibilidade e inspire você a entender mais as espécies nativas e explorar seu potencial no vinho.


Vitis labrusca

É variedade usada em vinho cerimonial judaico, geleia ou mesmo vinho de mesa. Mas um grande percentual dessa espécie é utilizado na elaboração de suco de uva. Desprezada no vinho, a labrusca apresenta um sabor próprio da uva, apelidado de “Foxy” pelos norte-americanos. Ela tem produtividade elevada, é resistente à filoxera, tem alta resistência às doenças, como míldio e oídio. Para o suco, nos Estados Unidos a mais usada é a Concord. Por lá também existem as brancas Antoinette e Cayuga, além da Catawba. No Brasil, no entanto, é a Niagara e a Isabel, assim como a Bordô [que ganha o nome de Terci em Santa Catarina e Folha de Figo em Minas Gerais].


Vitis riparia

Nos anos 1800 botânicos europeus migraram para os Estados Unidos para coletar videiras selvagens. Eles estavam completamente fascinados por todas as novas e únicas espécies comestíveis (e bebíveis) que o solo norte-americano tinha a oferecer para o mundo. Infelizmente, junto com as uvas vieram pragas microscópicas, como a filoxera que dizimou regiões importantes na Europa, principalmente para vitis viniferas. O grande papel das vitis americanas foi servir de porta-enxerto para o retorno do cultivo das viníferas. Entre as principais variedades estão a Bacchus, a Baco Noir, a Elvira (branca), a Frontenac, a Marechal Foch e a Triomphe D´Alsace. Porém, elas não conseguem chegar ao auge da maturação, por isso não possuem grande teor alcóolico.


Vitis rotundifolia

Ela aparece no sudeste dos Estados Unidos, mas propriamente na Carolina do Norte. Uma das espécies mais conhecidas é a Muscadine, cuja baga é gigante, em forma de globo. A fruta é rica em ácido elágico, única variedade a possuir esse composto fenólico. Esse elemento é o responsável pela redução das consequências da obesidade, a exemplo de doenças como gordura hepática e a cirrose não-hepática. Os norte-americanos utilizam o fato dessa uva ter esses poderes como um apelo de marketing. Por coincidência, a Muscadine é plantada justamente em uma região onde há altos índices de obesidade. Há relatos que a videira dessa casta pode crescer dez metros por ano e produzir mais de 40 quilos por pé (a média de outras vinhas gira em torno de cinco quilos por pé). Ela é muito consumida in natura, não tem muita coloração, apresenta baixo teor alcóolico, uma acidez média para alta, com corpo médio. E, naturalmente, os aromas lembram muito a fruta.


Vitis aestivalis

Produzida no Missouri, a Norton foi a uva plantada em uma AVA a ganhar concurso na Europa. Acredita-se que a variedade, que homenageia o médico Daniel Norton, seja uma híbrida de vinífera. Ela é muito comparada com a Zinfandel, com caráter picante, porém com muito mais cor e corpo, tem aromas secundários, além de enfatizar sabores de frutas pretas, café e chocolate. A Norton é o mais próximo possível de uma Vitis vinifera, por isso sua importância. Tanto é assim que essa espécie tem até mesmo um festival em sua homenagem.


Vitis rupestres

É a uva da areia e das encostas dos rios. Cresce muito bem na areia e tem alta resistência às doenças. Muitos botânicos franceses trabalharam com a variedade, por volta de 1800, para criar espécies híbridas com suas viníferas locais. As novas variedades eram populares na França. No entanto, quando o país determinou o sistema de Denominação de Origem, veio também a proibição do uso de híbridas nos vinhos. Entre as uvas mais conhecidas estão a Chancellor, a Dechaunac, a Auroer, a Vidal Blanc e a Vignoles.


Vitis mustangencis

São as uvas indígenas do Texas, cultivadas no “Dirty” South, em estados como Alabama, Mississippi, Louisiana e Texas. Não são uvas fáceis de comer, pois são repletas de sementes, amargas, com tanino e com acidez muito presente. São utilizadas apenas para produtores de vinhos domésticos, principalmente no Texas. Uma das variedades é a Mustante, utilizada para produção de vinhos para consumo local.



Sobre a autora: Caroline Dani é Diretora de Relacionamento com Alunos da ABS-RS. Sommelier profissional formada pela ABS-RS/ABS-SP. Possui graduação em Biomedicina pela Universidade Feevale (2004), mestrado (2006) e doutorado (2008) em Biotecnologia pela Universidade de Caxias do Sul (2006). Pós-doutorado na Georgetown Lombardi Comprehensive Cancer Center na Georgetown University, Washington, DC, EUA. Atualmente é professora do do Programa de Pós Graduação em Farmacologia e Terapêutica da UFRGS. Pós-Doutoranda na UFRGS. E membro da Comissão de Segurança e Saúde da OIV no Brasil. Tem experiência na área de Nutrição, com ênfase em Bioquímica da Nutrição.