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Um brinde ao IPCA


Alvo de críticas, hoje a “inflação do vinho” é a única estatística oficial do setor no Brasil – e o índice pode revelar caminhos para toda a cadeia da bebida quando tanto oferta quanto demanda exibem queda em razão da pandemia


A entrada do vinho na cesta de produtos que mede o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi objeto de críticas do setor e de especialistas. Porém, a inserção da bebida ocorreu em razão do consumidor estar comprando mais vinho. O fato do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) ter fechado as portas somado à retenção de recursos do governo gaúcho, em razão da crise da saúde, para a União dos Vinicultores do Brasil (Uvibra), fez com que o país simplesmente ficasse sem estatísticas oficiais para definir suas estratégias. As poucas que existem são não-oficiais e pouco claras e críveis, especialmente em razão das metodologias aplicadas. Graças ao IBGE, a “inflação do vinho” é o único índice estatístico oficial. Em um momento de dados caóticos – como vivemos atualmente – ao menos o segmento vinícola tem uma referência onde se basear para desenhar políticas de mercado em solo verde-e-amarelo.


Desde fevereiro o vinho vive uma curva exponencial dos preços no país. Em abril, subiu 4,4%. No ano, o produto já acumula alta de 5,1%. Entre as capitais pesquisadas, Porto Alegre foi aquela que mais imprimiu um índice galopante: 8,7% em abril (o dobro da média nacional) e 14,5% no acumulado anual (quase o triplo do IPCA do produto no mesmo período). O IPCA-15, uma prévia da inflação de maio, porém, parece trazer um alívio já que o índice é de apenas 0,2%, um avanço praticamente nulo, diante de uma deflação de 0,5%, a mais intensa desde o início do Plano Real, em 1994. Uma das razões para o amargo reajuste até aqui foi o dólar. A moeda norte-americana inflou 33% até maio. O vinho não subiu ainda mais por conta dos estoques adquiridos em dólar com uma cotação anterior menor em relação ao real. Porém, comerciantes já avisaram que um reajuste de 30% está por vir em junho, pois os estoques chegaram ao fim. Na gangorra do sobe-e-desce da inflação, a tendência é que os valores tendem a apresentar um viés de alta até dezembro.



No entanto, a curva crescente dos preços que está por vir encontra duas duras realidades. A primeira delas é que o Brasil vive um raro momento da história de sua economia onde há baixa oferta (com fechamento ou paralisação de estabelecimentos médios, pequenos e mesmo dificuldades enfrentadas pelos gigantes) e baixa demanda (as famílias retraíram o consumo em razão da imprevisibilidade trazida pelo coronavírus). Será vital adequar preços de produtos ao empobrecimento de grande parte da população. A desigualdade econômica entre consumidores vai se tornar maior e vinhos mais baratos terão de ser oferecidos pelos lojistas e vinícolas.


Esse cenário coincide justamente quando o Brasil colhe uma das suas melhores safras, se não a melhor, e há um aumento considerável do consumo da bebida, ainda que estatísticas precisas inexistam. Quem disse que lidar com vinho é algo fácil? O setor de bebidas frias já se manifestou afirmando que não reajustará preços para produtos como a cerveja, por exemplo – algo impossível de prometer que aconteça com o vinho, em razão da sua complexidade tributária e altamente dependente da variação do euro e dólar, entre outros fatores.


Porém, sim, é possível encaminhar algumas ações para mitigar os futuros e frequentes reajustes que estão por vir – a começar pela profissionalização das vinícolas e do varejo em geral. Como bem sabemos, em qualquer empresa média brasileira faltam mínimos processos de controle e gestão (hoje disponíveis por meio de aplicativos e softwares, cuja tecnologia ajuda a mitigar erros que podem custar muito caro para qualquer negócio) ou mesmo departamentos – ainda que ocupados por um único funcionário – que zelem pela comunicação interna e externa.



Agora, ao menos, os empresários passam a ter uma referência e sabem – através dos dados quinzenais e mensais da “inflação do vinho” – se sua política de preços está adequada, aquém ou além da média nacional. Outra providência será fazer com que o e-commerce realmente faça parte do negócio e que as vinícolas – acostumadas a receberem grupos de turistas em suas sedes – projetem seus tours virtuais, sem esquecer de oferecer ao cliente uma experiência única. E, claro, como quem não é visto, não é lembrado, investimentos em marketing, ainda que pequenos, preferencialmente em redes sociais, além de publicações e sites idôneos, devem fazer parte desse pacote de reconstrução de todo o setor.


E, por fim, como preço pode ser algo relativo para algumas pessoas, ainda mais em se tratando de uma paixão como o vinho, que mal fará se a cadeia vinícola (notem que esse artigo nem menos entrou na seara de bares e restaurantes, segmento que será um dos mais prejudicados pela atual crise econômica, e lugares onde os sommeliers melhor exercem seu ofício) tiver de repassar custos ao preço final? Quem adora vinho, fará um sacrifício a mais para seguir com a sagrada rotina da degustação diária. O consumidor curioso também não ligará se a experiência contida dentro de uma garrafa se mostrar marcante.


Enfim, a única estatística oficial sobre o vinho no Brasil revela que, ao menos até agora, a bebida de Baco só respondeu aos movimentos da sua demanda, pois há oferta abundante em todo o mercado nacional e preços para todos os bolsos. E anotem: o setor ainda louvará o fato da bebida ter começado a fazer parte do cálculo da inflação justamente em um 2020 onde a Covid simplesmente esmagou as economias de diversos países, inclusive os mais desenvolvidos. Todos sairemos mais pobres, mas vivos, e comemoramos a vitória brindando com taças de vinho. E pagando o preço que for – pela sobrevivência de um setor pouquíssimo reconhecido pelos governantes.



Autor: Marcos Graciani

Vice-presidente da ABS-RS



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