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Saiba quem é o produtor do vinho de R$ 5 mil, o mais caro do Brasil

O vinho mais caro do Brasil é vendido a R$ 5 mil. A garrafa, de 750ml! É um Cabernet Sauvignon da safra 2002. Aliás, há outros dois com o mesmo preço — um Tannat e outro Nebbiolo — ambos de 2002 (uma safra mediana). Os valores foram revelados em uma live que realizei no Instagram da ABS-RS. Causaram espanto em quem assistiu, incluindo eu mesmo.

Até então, o vinho brasileiro mais caro do Brasil era o Milantino Gran Reserva safra 2005, comercializado a R$ 1.500,00 (a vinícola de mesmo nome tem outros rótulos de safras antigas vendidos entre R$ 400 e R$ 1 mil). Nunca provei estes vinhos. Dos que já degustei, o Sesmarias 2018 (uma grande safra!), da Miolo, é vendido por R$ 886,66 no site da vinícola, somente em caixa fechada com seis garrafas (R$ 5.319,96 no total). Outros vinhos nacionais de alto valor que já provei são o Luiz Valduga não safrado (R$ 400 a unidade) e o Lidio Carraro Vinho de Ânfora, também da safra 2018, que é comercializado a R$ 395,00, em caixa de duas garrafas (R$ 790,00 no total). Nos espumantes, o Cave Geisse Nature 2010 40 anos custa R$ 550,00, mas a garrafa é de 1,5 litro. O Anima Gran Reserva 2018, da Bueno Wines, vale mais de R$ 500 (está em pré-venda no site da marca por R$ 479,23 para entrega em dezembro de 2020).

Mas, afinal, quem é o produtor do rótulo mais caro do Brasil?

Produtor dos vinhos mais caros do Brasil vive, com simplicidade, no interior de Garibaldi

É o vinhateiro Vilmar Bettú, uma verdadeira lenda no mercado nacional de vinhos.

Engenheiro mecânico por formação e professor de física (deu aula em uma escola estadual até seis anos atrás), Bettú é o “rei das microvinificações”. Possui 98 rótulos (varietais e assemblage) à venda na propriedade da família, no interior de Garibaldi (RS).

Sua vinícola de garagem, apesar de ele não gostar deste termo, fica no porão da sua casa. Foi lá que conheci Bettú em junho 2011 (uma década depois de ele começar a receber clientes), numa degustação [foto] com jornalistas, blogueiros e formadores de opinião de todo o país que começou às 23h30 e terminou às 4 horas da manhã. Apesar do horário inusitado, a conversa animada e a degustação por horas a fio são marcas dos encontros com Bettú, que só recebe grupos de até 10 pessoas. Seus rótulos mais baratos custam R$ 130 (rosés) e vão até R$ 380 (seus Nebbiolo, Tannat e Cabernet Sauvignon de várias safras, muitas antigas, com mais de 10, 15 anos). Isso na tabela oficial oferecida a todos que visitam seu “esconderijo”.


Lei da oferta e demanda determina tabela de vinhos raros do Bettú


Mas voltemos ao vinho mais caro do Brasil. Antes de tudo, é preciso entender que Bettú tem um jeito singular de precificar seus vinhos. Ele segue, rigorosamente, a lei da oferta e demanda. À medida que as garrafas dos seus vinhos vão sendo vendidas, especialmente aqueles que ele gosta mais, o preço aumenta. “Quanto menor a quantidade, mais caro o vinho. Pra me desfazer dele, tenho de ter dinheiro pra comprar coisa melhor de outros produtores”, diz ele, sem esconder um sorriso no rosto.

Estes três vinhos da safra 2002 (Cabernet Sauvignon, Tannas e Nebbiolo), que custam R$ 5 mil cada garrafa, são raridades. Estão, obviamente, em uma outra lista – a dos “vinhos raros”. “Tenho três garrafas de cada um deles. E não quero vender, a não ser que paguem bem”, declara, em tom sério. “Estes vinhos têm estes valores em função da raridade, mas a qualidade é a mesma dos outros rótulos destas mesmas uvas”, avisa Bettú, acrescentando que valores altos, além de remunerar bem o seu trabalho, evitam que um só cliente compre vários rótulos. “Quero que várias pessoas experimentem os meus vinhos”, diz.


Me animei, na live, e perguntei qual era o preço de dois rótulos que comprei há alguns anos e que descansam na minha adega [foto], um Cabernet Sauvignon 2005 (safra histórica) e um Nebbiolo 2006 (outra grande safra). “Estes valem R$ 3 mil”, cravou Bettú. Que investimento, hein?! Quantas aplicações no mundo dariam um rendimento 10 vezes mais do que o preço pago? Quando comprei estas garrafas, paguei R$ 300 cada uma. Tive de raspar minhas economias e confesso que assinei o cheque (faz tempo, eu sei!) trêmulo e com certa dor no coração — e no bolso. Mas, agora, posso estufar o peito e me orgulhar do investimento que fiz!

A título de comparação, o Sesmarias, ícone da Miolo, está com a emblemática safra 2020 "en primeur" (pré-venda) no site da vinícola por R$ R$ 2.931,60 (a caixa com seis unidades, R$ 488,60 cada uma). Quando for lançado, certamente valerá, no mínimo, o dobro. Nada como o lucro de 900% que eu tive com meus dois rótulos do Bettú! Brincadeiras à parte, agora estou em dúvida se bebo ou vendo estas garrafas para fazer caixa.

O alquimista do vinho brasileiro

Bettú virou vinhateiro em 1999, seguindo a tradição do pai e também do avô, Dionigi, imigrante italiano, que plantou o primeiro parreiral da família há mais de 125 anos. A família sempre cultivou uvas para vender a vinícolas e cooperativas, como a maioria dos produtores da época. Nos anos 70 e 60, poucos queriam produzir vinho no Rio Grande do Sul. Tinha muita falsificação. “Só tomei coragem graças ao excelente trabalho feito por vinícolas como Miolo, Casa Valduga, Don Laurindo, entre outras, e a aposta consistente no enoturismo da família Michelon e de vários outros no Caminho de Pedras e no Vale dos Vinhedos. Foi isso que me animou a produzir vinho de qualidade para clientes exigentes”, comenta.


A produção começou com ele, um cunhado e seu irmão Orgalindo, que é enólogo, e depois foi trabalhar em Santa Catarina, na Villa Francioni. No início, cada um trazia alguém para conhecer a produção. “Antes dessas modernidades como o Waze e Google Maps, as pessoas se perdiam muito até chegar aqui. E ficavam brabas. Por isso eu sempre abria um espumante, fazendo o dégorgement na hora, antes de começar a degustação”, recorda.

Os primeiros clientes foram um casal do Rio de Janeiro, em 2001. Até hoje a data e os nomes deles estão gravados na mesa redonda onde Bettú promove as degustações de suas preciosidades.


“Tivemos de ter paciência. Era tudo no boca a boca, um cliente contando pro outro. Confesso que os vinhos dos primeiros 10 anos eu tomei quase que sozinho”, brinca Bettú.

A primeira safra foi de apenas 500 litros. A produção foi aumentando gradativamente, sem nunca abandonar a filosofia das microvinificações. Atualmente, faz cerca de 20 mil litros de vinhos, a partir de mais de 30 variedades de uvas viníferas cultivadas por ele próprio ou por parceiros em Garibaldi, arreadores e na serra do sudeste (em Encruzilhada do Sul).

Um de seus diferenciais é elaborar vinhos com uvas exóticas pouco usadas por outros produtores. Entre elas, destaque para Rebo, Garganega, Montepulciano, Peverella, Alicante Bouchet, Ancellotta, Arinarnoa, Barbera, Sangiovese, Nebbiolo, Marselan, Teroldego, Touriga Nacional, Malvasia de Cândia, Riesling Renano e Moscato Alexandrino. Suas microvinificações são guardadas em garrafões de vidro. É por isso que muitos o chamam de o “alquimista do vinho”.

Entre seus vinhos mais celebrados, algumas curiosidades: o branco Salarina, que ele mantém o mistério de não revelar a uva utilizada; o Exacorte, uma mistura de mais de 20 uvas de safras antigas diferentes; e a linha Sacramentum, que ele não especifica a safra, só diz que aproximadamente elas são de 2002 a 2006. O Sacramentum branco Bettú sequer sabe a uva utilizada. Todos os rótulos desta linha são vendidos a R$ 250,00.


Rótulo minimalista, com uma folha de videira, é a marca do produto artesanal

Conheça o segredo dos vinhos do Bettú


O segredo dos seus vinhos é universal a todos os bons produtores: a utilização de uvas de alta qualidade. “Para fazer bons vinhos, encorpados, equilibrados, com boa acidez, é só usar uvas perfeitas, com alto teor de açúcar para gerar vinhos com pelo menos 13,5 graus de álcool”, ensina.

Por tradição, da época em que não tinha recursos para comprar uma prensa, Bettú e sua família ainda esmagam boa parte das uvas com os próprios pés. Depois, alguns passam por barricas, e a maioria vai mesmo para pequenos tanques de aço inoxidável para repousar de seis meses a três anos. Por fim, os vinhos são acondicionados nos seus famosos garrafões de vidro, onde a maturação pode durar anos em corredores escuros do porão da sua casa.


“Sou um vinhateiro apaixonado. Quero despertar nas pessoas a mesma paixão pelo vinho que eu tenho. Nem sempre sigo a técnica enológica com rigor. Me dou o direito de aventurar por caminhos desconhecidos, sem compromisso com a produção comercial. Faço experiências que, se não derem certo, só aumentam meu estoque de vinagre, não há maiores consequências”, diz Bettú.

Alguns raros restaurantes exibem com orgulho seus rótulos, comprados sempre diretamente, sem intermediários. Um deles é o Aprazível, situado em Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Anos atrás, o Pedro Hermeto, proprietário do restaurante carioca, me contou que um dos maiores fãs dos vinhos do Bettú era o jogador de futebol Adriano Imperador. “Além de sempre pedir os vinhos do Bettú, ao ir embora ele sempre levava umas garrafas com ele pra tomar em casa”, revelou. O Di Paolo, em Garibaldi, possui rótulos que nem o Bettú tem mais.

A vinícola familiar conta com a ajuda das filhas Larissa, que é enóloga, e Catenca. Junto com a esposa Salete, elas ajudam nas multitarefas da vinícola. O produtor não tem representantes, distribuidores ou vendedores. Só é possível comprar na sua casa/vinícola ou por telefone. Os principais clientes vêm do Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Bettú está pronto para ingressar no mercado globalizado. Um site está em produção e vai levar seus rótulos para o ambiente digital. “Não tem jeito, né? A tecnologia tá aí e temos que aderir”. Mas não deixe de colocar na sua agenda uma visita presencial ao seu porão assim que a pandemia do coronavírus passar. Nada substitui a conversa franca e cara a cara com o “mago” Bettú. Só um alerta: reserve tempo e não dirija!

Como achar o Bettú:

Fone fixo: 54 3462.6807

Whatsapp: 54 99267.0627 (com a filha Larissa)

E-mail: vilmarbettu@gmail.com

Endereço: Rua São Gabriel, 1204-1294 - Guarani, Garibaldi – RS

Autor: Orestes de Andrade Jr.

Presidente da ABS-RS, Jornalista e Sommelier

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