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Os novos vinhos brasileiros

O país oferece uma ampla gama de produtos e estilos da bebida


O Vale do São Francisco será a primeira indicação geográfica mundial de vinhos em regiões tropicais
O Vale do São Francisco será a primeira indicação geográfica mundial de vinhos em regiões tropicais

O Brasil já produz bons vinhos há anos. Tintos de leve até potentes e estruturados. Vinhos brancos perfumados a frescos e florais. Espumantes frutados e também estilos complexos e intensos. Apesar das opções, os fermentados nacionais não param de crescer com a crescente chegada de novas opções. Ou seja, o vinho no Brasil pode ser resumido em uma palavra: diversidade (veja ao final deste artigo a aula completa que lecionei sobre os novos vinhos brasileiros). Da Campanha Gaúcha até o Vale do São Francisco (foto acima) existem inúmeros e diferentes terroirs se formando e fazendo com que o Brasil possa oferecer uma ampla gama de produtos.


E não se pode falar sobre vinhos no Brasil sem destacar nossa única Denominação de Origem (DO): o Vale dos Vinhedos. A próxima DO deve ser anunciada em breve. Trata-se dos vinhos de Altos de Pinto Bandeira e será exclusiva para espumantes. Além de novas DOs, o Brasil deve contar futuramente com a concessão, pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), de outra Indicação de Procedência (IPs), a saber: os vinhos do Vale do São Francisco, na divisa de Pernambuco com a Bahia. Será a primeira indicação geográfica mundial em região tropical. Fato que comprova a diversidade de terroirs nacionais.



O brasil possui um grande diversidade na elaboração de vinhos de qualidade do sul ao nordeste
O brasil possui um grande diversidade na elaboração de vinhos de qualidade do sul ao nordeste

É bom lembrar que o Vale dos Vinhedos segue tendo sua IP, porém, essa tem níveis menos exigentes para a produção vinícola. Existem requisitos específicos para o cultivo dos vinhedos, produtividade e qualidade das uvas para vinificação. Vinhos finos tranquilos brancos e tintos e vinhos espumantes finos são os produtos da DO Vale dos Vinhedos. O uso da uva Merlot é obrigatória para os vinhos finos tintos (para varietal é exigido um mínimo de 85%), os quais podem ter cortes com vinhos elaborados com as uvas Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Tannat (com no mínimo 60% de Merlot para elaboração de blends). Os espumantes finos são elaborados exclusivamente pelo método tradicional (segunda fermentação na garrafa), nas classificações Nature, Extra-brut ou Brut. As uvas Chardonnay e/ou Pinot Noir são de uso obrigatório, com no mínimo de 60%. Nos vinhos finos brancos, a Chardonnay é de uso obrigatório (no varietal tem de ter, no mínimo, 85%), podendo ter corte com a Riesling Itálico (mínimo de 60%).


A Riesling Itálico é uma uva mais neutra e os produtores têm dado atenção maior para essa variedade, inclusive a utilizando em vinhos tranquilos. Ela fará com que os vinhos sejam mais frescos, com menos corpo e álcool, uma tendência atual já que os consumidores estão buscando vinhos mais fáceis de beber. Notem que as castas italianas também têm elevado sua produção e qualidade dos produtos, a exemplo da Rebo, da Barbera, da Teroldego e da Ancelotta, apenas para citar alguns nomes. Isso é uma prova de que as regiões tradicionais brasileiras estão buscando novos cultivares.



Novas regiões dos vinhos brasileiros


Algumas regiões do país têm conquistado importância. São Paulo é uma delas com seus Syrah e brancos. Os vinhos do Cerrado, onde também existe a dupla poda e a colheita de inverno, estão ganhando mais qualidade. Goiás e Brasília especialmente estão fazendo bons trabalhos com a Syrah e a Barbera. Os vinhos dessas regiões têm um traço peculiar: ainda que mantenham frescor, o teor alcóolico pode atingir o pico de 16 graus. No Vale do São Francisco também há produtos elaborados com Syrah interessantes. Ainda há muito que se descobrir com a Syrah, que se dá bem com a colheita de inverno, as regiões tropicais poderão experimentar muito com outras variedades que, talvez, poderão ser ainda melhores.


Outra aposta minha é que vão aparecer cada vez mais no Brasil vinhos feitos com a Sauvignon Blanc. Santa Catarina tem trabalhado essa casta cada vez melhor, especialmente no Planalto Catarinense. Outras localidades, como os Campos de Cima da Serra e a zona tropical brasileira (especialmente SP e MG) onde existe dupla poda e colheita de inverno, também farão dessa variedade um ícone. Um estudo feito pelo economista Kym Anderson - PhD revela que está crescendo o cultivo de uvas brancas que dão um vinho de perfil aromático frutado e herbal, e alta acidez – um contraponto aos vinhos brancos mais potentes e encorpados. A Sauvignon Blanc em locais mais quentes ganha sabores e sabores de frutas tropicais (maracujá e goiaba), enquanto em climas frescos se destaca a fruta cítrica e a acidez em nível alto.



Novos espumantes e outras borbulhas


Um caminho sem volta são os espumantes que o Brasil sabe fazer bem de Norte a Sul. Há moscatéis interessantes no Vale do São Francisco, como também vários estilos, seja de segunda fermentação em garrafa ou em tanque. Ou, ainda, um produto muito verde-e-amarelo que é o espumante sur lie, onde as leveduras da segunda fermentação ficam na garrafa, que oferece uma experiência sensorial extremamente diferente do mesmo produto feito pelo método clássico. Os aromas e sabores são peculiares, é turvo e tem uma textura em boca muito aprazível. Os espumantes tintos, com estrutura maior e intensidade, tendo em vista a extração feita para concentrar, com sua tanicidade faz um belo par com a gastronomia.


Os produtores brasileiros de espumantes tintos são corajosos, pois ao redor do mundo costuma-se fazer esse estilo de vinho doce, diferentes dos nacionais mais secos. Os espumantes rosés se consolidaram muito bem no Brasil, tendo uma linha de produtos desde mais frescos até os mais estruturados e devem ser consumidos jovens. Há espumantes rosés feitos com Tempranillo e Malbec, como também propostas diferentes. Quanto mais tempo deixar em contato com as cascas, mais estrutura o espumante rosé terá.


Novas técnicas de elaboração estão cada vez mais presentes na produção nacional
Novas técnicas de elaboração estão cada vez mais presentes na produção nacional

O novo vinho brasileiro também tem apresentado novas técnicas de produção. O appassimento já vem sendo feito há um bom tempo. Nesse caso, as uvas maduras são colhidas e desidratadas fora da videira seguindo um processo ao estilo Amarone (na Itália). Desse modo, as uvas concentrarão mais os taninos e acidez, como também álcool e intensidade de sabor. As ânforas também estão sendo usadas. São grandes vasos de barro para fermentação ou mesmo amadurecimento do vinho. Nesse caso, a bebida ficará mais rústica, com notas terrosas. Os vinhos laranjas, que se destacam por ser menos intervencionistas, terão uma cor âmbar ou alaranjada, pois as cascas das uvas brancas passam por uma extração pelicular. Uma coisa é certa: os conceitos orgânico e biodinâmica vieram para ficar.


Um resgate recente pelo qual o Brasil tem feito é Pét-Nat, nome dado aos vinhos produzidos no estilo Pétillant Naturel, termo francês que significa "espumante ou efervescente natural". Ele é produzido pelo método ancestral, engarrafado ainda durante a primeira fermentação, antes de todo o açúcar ter sido convertido em álcool. Como a fermentação continua dentro da garrafa, o processo gera gás carbônico, tornando-se um vinho com menos perlage e muito agradável para beber.



Assista a aula sobre os Novos Vinhos Brasileiros


Sobre o autor: Marcelo Vargas é vice-presidente e professor da ABS-RS. Atua como professor convidado de pós-graduação da Università di Camerino (Itália). Professor da PUCRS de pós-graduação. Cocoordenador no MBA em Marketing e Negócios do Vinho e Pós de Negócios em Alimentos e Bebidas da ESPM-Sul. Pesquisador do Centro Italiano di Analisi Sensorial para projetos nas áreas de Análise Sensorial, Consumer Science e Neurociência Aplicada.