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História, evolução e revolução da vitivinicultura na Austrália

O uso de técnicas inovadoras nas vinhas e o experimento de variedades não tradicionais são apenas duas características que a Austrália deseja mostrar ao mundo nos próximos anos 


Caroline Dani, presidente da ABS-RS


A Austrália é uma massa de terra há mais de 100 milhões de anos e seus solos são alguns dos mais antigos da Terra. Em parte por isso o clima e os solos australiano são extremamente diversificados. As primeiras videiras foram plantadas ainda em 1788. O vinho é produzido em todo o país, embora esteja concentrado nas regiões Sudeste e Sudoeste. Tão colossal como o Brasil, esse país é uma das poucas nações em todo o mundo que possui regulamentação própria para o cultivo de vinhas velhas. Tanto é verdade que videiras plantadas em 1850 ainda seguem dando frutos e algumas regiões vinícolas orgulham-se por serem livres da temida filoxera. Calcada em sua longa história relacionada com a vitivinicultura, a Austrália evoluiu ao longo das últimas décadas e tem sido inovadora nesse campo. Essa foi uma das minhas conclusões em recente visita técnica que os professores e diretores da ABS-RS fizeram ao país no começo deste ano.


A latitude, as influências marítimas e o solo contribuem para uma enorme diversidade de climas que vão desde as zonas alpinas, passando pelas áreas mediterrânicas, aos trópicos até chegar ao centro do país que é muito seco. Outra característica relacionada ao terroir é a de ser uma terra plana, sem muitas elevações. Assim como em todo o planeta, o clima tem se tornado mais quente. Em geral, os vinhos premium de maior valor vêm de regiões menores e de clima mais frio onde a amplitude térmica ajuda a prolongar o amadurecimento das diferentes castas.


Em Barossa, na vínicola Two Hands, existe um método de condução conhecido como “echala” (foto). Nesse caso, a videira é conduzida na vertical para que os raios solares incidam de todos os lados fazendo com que o amadurecimento dos cachos seja uniforme. Também é comum que algumas vinícolas optem por colher determinadas uvas mais cedo, de modo a preserver maior acidez no produto final. Em fevereiro, por exemplo, Hunter Valley já havia terminado a vindima, enquanto outras regiões colherão em março ou até mesmo em abril. Também salta aos olhos uma preocupação latente com a sustentabilidade. Nas regiões onde predominam a produção orgânica ou biodinâmica, a noção de que a natureza é um bem esgotável é levada muito a sério. Tanto é verdade que os vitivinicultores estudam se determinada planta necessitará mesmo de irrigação, de modo a não desperdiçar água.


Caroline Dani, acervo pessoal

Condução em echala, com videira na vertical para favorecer amadurecimento uniforme dos cachos de uva


Como se nota, cada uma das 65 regiões vinícolas da Austrália tem suas próprias características e, claro, estilos de vinho. Outra característica marcante é que as diferentes regiões produtoras sabem que possuem um perfil diferente das outras e focam no melhor produto possível buscando o que elas têm de melhor. Essas localidades também optaram por buscar referências em produtos premium para que possam competir de igual para igual no mundo. Um exemplo disso é a Tasmânia, berço dos espumantes australianos. Os produtores da ilha espelham-se na região de Champagne, inclusive utilizando expressões em francês para explicar como seus vinhos são elaborados.


As variedades e estilos de vinho mais proeminentes da Austrália são espumantes, Riesling, Semillon, Chardonnay, Pinot Noir, Grenache, Shiraz e Cabernet Sauvignon. A casta branca mais plantada e exportada é a Chardonnay, base para os vinhos brancos clássicos do país. A Austrália tem aproximadamente 10% das plantações mundiais dessa casta e é o terceiro maior produtor da variedade, depois da França e dos Estados Unidos. A Tyrrell's tem um hectare e meio plantado em 1879. Esse é um dos vinhedos mais antigos de Hunter Valley que produz frutos excepcionais até hoje. O estilo evolui dos grandes vinhos que passavam por carvalho dos anos 1980 e 1990 para produtos mais elegantes atualmente.


Já a Shiraz é cultivada em 60 das 65 regiões e responde por quase um quarto da produção total de vinho. A Austrália tem uma das mais antigas videiras de Shiraz em produção contínua do mundo, muito provavelmente plantada em 1843. As vinhas velhas produzem frutos consistentes e de boa qualidade há muitos anos, e por isso que ainda permanecem. Essa casta pode oferecer uma ampla gama de expressões: de tintos acessíveis a clássicos envelhecidos. Quando jovens, eles apresentam boa textura, com amplos aromas de frutas escuras. Quando envelhecem, os vinhos de Shiraz apresentam notas de especiarias e aromas terrosos. No entanto, o país tem apostado em variedades alternativas – principalmente castas mediterrâneas, como Vermentino, Nero d´Avola, Nebiollo, Sangiovese, Zinfandel e Arinto, somente para citar algumas delas.


Os produtores australianos também são defensores ferrenhos da screw cap. Como a rolha de cortiça não era de boa qualidade, pesquisas da Universidade de Adelaide e outros centros de ensino concluíram que esse tipo de vedação garante a integridade da bebida ao longo do tempo. Porém, algumas vinícolas ainda utilizam rolha para seus vinhos premium. Essa busca pela criatividade, sem abrir mão da ciência, é um traço marcante da vinicultura do país, liderada especialmente pela Wine Australia. O organismo é financiado por produtores de uvas e vinicultores por meio de taxas e pelo governo australiano financiando projetos de pesquisa e desenvolvimento. O aporte em P&D totalizou US$ 27 bilhões no ano passado.  


Hoje, 59% do vinho australiano é enviado para 112 países fazendo do país o sexto maior exportador do mundo. O Reino Unido, os Estados Unidos e o Canadá responderam por 70% do volume no ano passado. Nada menos que 15,5 milhões de taças de vinho australiano são consumidas no exterior todos os dias. E 80% do vinho consumido na Austrália é produzido no próprio país. Algumas vinícolas também estão começando a enviar seus vinhos para o Brasil. Será uma oportunidade única para os consumidores daqui degustarem os exemplares que aqui chegarem. Será uma forma de provar na taça a revolução e inovação australianas.



Sobre a autora

Caroline Dani é biomédica pela Universidade Feevale, Mestre e Doutora pela UCS (Universidade de Caxias do Sul), pós-doutora pela Georgetown Universtity e pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Pesquisadora dos derivados da uva há mais de 15 anos e integrante docente da UFRGS no PPG Farmacologia e Terapêutica. Foi Professora e Coordenadora de Programa de Pós Graduação no Centro Universitário Metodista IPA por mais de uma década.

Sommelière Profissional (ABS-RS) e Master Países e Regiões (ABS-RS). Pesquisadora e consultora na área de derivados da uva. Membro de comissões da OIV e do Programa Wine in Moderation. 

 

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